Archive

Posts Tagged ‘G20’

Glenn Stevens: Poupar enquanto é tempo de vacas gordas

June 9, 2010 4 comments

Parece que a atuação do Governador do Banco Central da Austrália está fazendo efeito.

Hoje em discurso para o setor privado, em Sydney, Glenn Steven confirma sua mensagem de austeridade e quer que isso seja adotado pela população. Não é a toa que vem aumentando os juros e até deu uma freada, pois ve a população de alguma forma atendendo a seu pedido, mesmo que seja na marra.

Quer mais evidencia?

confiança do consumidor caiu este mes, confirmando o esforço de Glenn no aumento dos juros. Outro dado confirmando isso foi a queda no emprestimo imobiliário que atinge o ponto mais baixo nos ultimos nove anos. (anos nao meses!) e os emprétimos estão caindo nos ultimos sete meses.

Agora vem alguem me falar que a economia esta recuperando…

O que Steven deseja é simples: poupe e pague dividas.

Aqui vai um trecho do discurso:

“One would have to think that, however well households have coped with the events of recent years, further big increases in indebtedness could increase their vulnerability to shocks – such as a fall in income – to a greater extent than would be prudent.”

Em suma ele quer que a população não entre mais em divida e diminua as que tem  enquanto a situação não piora e se for o caso todos estão preparados.

O discurso foi otimista no geral com relação a situação de estabilidade economica na Australia. Enfim um discurso bem prudente, pois no caso da piora vir a Australia tem que estar bem preparada.

A Austrália é dos paises menos endividados do mundo quando se fala em divida pública, mas um dos mais endividados do mundo em divida pessoal. Isso ja foi post aqui no blog. E noticias como esta: Middle Class hi by bankruptcies. Ja não me assusta.

”One of the biggest findings was that more and more of the middle class are being claimed by bankruptcy, and, to us, it seems a social problem that has escaped notice.”

Este final de semana teve encontro do G20 na Coreia do Sul e ouvi um comentario do blog do Mish sobre o sucesso que foi. Aqui vão os principais pontos do sucesso:

  • Merkel and Trichet politely told Geithner to go to hell. Given that Geithner needs to be fired, this is a positive event.
  • Europe is more concerned about sovereign debt issues than stimulating growth. Only fools like Geither and the IMF would argue against that.
  • No one paid any attention to Geithner or the Keynesian clowns at the IMF, most notably, IMF Managing Director Dominique Strauss-Kahn.
  • There was no agreement on a universal bank levy. A universal tax is the wrong approach to risk management and it punishes banks with good lending practices.
  • Geithner made a complete fool out of himself.
  • A dozen cheers for German Chancellor Angela Merkel who said “We can only spend what we receive in income.” Finally someone gets it.

Destaque para Angela Merkel, primeira ministra alema e J. C. Trichet, presidente do banco central europeu, que calaram a boca do T. Geithner, secretario do tesouro americano. O negocio na Europa não está bom e a mensagem foi clara, como pode ver acima. “Nos só podemos gastar o que recebemos de receita”, em outras palavras. Não vamos imprimir dinheiro.

Bom pra mim isso significa. Compre Euro e venda USDolar. Eu até postei um grafico aqui do Euro que foi massacrado nos ultimos meses e está agora menos de 1.20USD.

Para finalizar a parte política do post o parabens agora vai para o primeiro ministro britânico David Cameron que disse que vai apertar o cinto.

David Cameron warns of ‘pain’ in Government spending cuts : Mr Cameron said areas that need to be addressed include “massive welfare bills”, public sector pay and “the bureaucracy that has built up over the past decade”.

Cameron, vai cortar a mamata da galera. Esse é o lado bom de governo conservador. Maraja não tem vez.

Amanhã sai o numero do desemprego na Austrália e espero que fique estável. se mudar muito ficarei surpreso. Talvez uma pequena melhora. Não teve nenhum indicador de tendencia que o numero melhoraria significamente ultimamente. Na segunda feira o indicador do ANZ indicou um pequeno aumento nos anuncios de emprego em maio 2.2%.

As vésperas do G20 em Pittsburgh

September 16, 2009 2 comments

Agora deve ser verdade.

A recessão acabou.

Não senti tanta firmeza na afirmação de Ben Bernanke. Ele usou a palavra BEM PROVAVEL, mas não disse que a recessão acabou categoricamente.

“US Federal Reserve chairman Ben Bernanke says it’s “very likely” the recession in the world’s biggest economy has ended.”

Muito embora, os fundamentos da economia não mostram recuperação.

O desemprego continua subindo, bancos quebrando, ainda. Ate agora 92 só este ano. Veja aqui a lista do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation)

Segundo a controversa analysta, Meredith Whineth a lista pode chegar a mais de 300.

E os foreclosures aumentando em níveis recordes.( Forclosure são bancos tomando posse de casa de quem deu calote na hipoteca.)

Enquanto isso… ontem… Obama deu mais um daqueles eloquentes discursos bem no aniversário de um ano que o Lehman Bros. quebrou. Quebrou devido ao fato de ter sito “escolhido” a não ser ajudado (bailed out). Existe muita controvérsia se deveria ou não ter deixado o banco quebrar. Uns dizem que foi injustiça outros acham que mereceu e foi “bom” ter quebrado.

Opinião pessoal: Acho que foi injustiça por ter escolhido um e não outro. Ou ajuda todo mundo ou deixa degringolar o sistema e deixa o mercado ajustar.

O tom do discurso de Obama foi aquele velho papinho que os bancos e Wall Street não aprenderam a lição e que tomaram muito risco e desta vez será diferente que eles serão mais bem regulados e bla bla bla e que ninguém deve ser complacente porque as coisas parecem estar voltando ao normal e blabla bla. Obama é muito bom e vomitar o obvio e tem funcionado.

Quem quiser ouvir na integra aqui vai o link

Obama também comenta do papel dos EUA no cenario global de liderança e no meio do discurso, nas entrelinhas, da uma explicação pra China porque quer manter valer as regras de comercio exterior, diga se de passagem uma regra protecionista.

So colocando um pouco de contexto. Obama reforçou uma tarifa de 35% de pneus importados da China para “garantir” 5000 empregos na industria e com isso gerou furia dos chineses e ao mesmo tempo abriu precedentes para outras industria pressionarem para que tenha outras tarifas protecionistas para garantir empregos. Se isso acontecer tem o risco de uma forte guerra comercial entre EUA e China.

Na reunião do G20, que será semana que vem em Pittsburgh, Obama terá muito o que explicar e negociar com Hu Jintao.

Enquanto isso, o mercado não para. As ações não param de subir, batendo recordes anuais. Ontem todos os principais indices nos EUA e ao redor do mundo fecharam nos niveis mais altos do ano.

Por um lado da pra entender o apetite por risco, pois o dinheiro esta bem barato com os juros a .25% nos EUA e relativamente ao redor do mundo. Isso é um total desincentivo a poupança então o apetite por risco esta aumentando. E como as noticias são boas! Porque deixar o dinheiro parado no banco rendendo só 0.25% ao ano.

Dito tudo isto gostaria de deixar minha opinião analizando quais são os possiveis cenários

O mercado estava a beira de um colapso e Bernanke veio com a seguinte estrategia. E isso ele comenta em uma recente entrevista dada no 60 minutes americano (recomendo assistir).

- Injetar dinheiro no mercado pra evitar o colapso e;

- Injetar dinheiro na economia pra estimular e dar um empurrãozinho.

O resultado, segundo Bernanke e Obama, é que a economia “parou de cair” e esta se “recuperando”. Alguns numeros realmente estão dizendo isso, principalmente desaceleração nas tendencias negativas.

Entretanto, o custo disto tudo é

- Aumento da divida (deficit publico)

Em consequencia disto, os prováveis cenarios, que estão muito em debate é Inflação ou Deflação.

O cenario da deflação esta meio que descartado, pois foi a lição aprendida na crise de 29. Em 29, porque o governo não interviu o suficientemente forte,  o preço dos ativos despencaram e a econimia estagnou por quase uma decada.

Bernanke, então, esta imprimindo dinheiro e esta tentando transformar a deflação em um regime de preços estaveis. Ate agora esta funcionando e parece que os preços estao sob controle.

Se conseguir fazer isto será o genio da economia do milenio.

Muito embora, o risco da coisa degringolar é o seguinte.

O Banco central americano depende de poupança de outros paises para suportar a emissão de nova divida (Fed Bonds) para imprimir mais dinheiro.

Hoje quem banca issto é a China, Japão de outros paises emergentes que tem a balanca de pagamentos positiva. Assim Bernanke tem a teoria que ele tem fundos ilimitados. O quanto que ele quiser emitir de divida sempre tem alguem comprando. Por isso, ao mesmo tempo, ele pode manter a taxa de juros nos EUA baixa.

Nesse esquema que mora o perigo e é extremament vulnerável.

Enquanto a inflação nos EUA estiver sob controle, quem comprou os Feb Bonds não esta muito preocupado, mas se a inflação comecar a estourar vai ter uma corrida pra vender estes titulos o que fará com que o juros aumentarem nos EUA forçado pela queda na demanda por divida o que estimulara a poupança e os investimentos despencarão e com isso vai a bolsa pro vinagre.

Neste cenário, a meu ver, o mercado esta em um momento muito delicado.

O que tem acontecido nos bastidores no momento é o preco do Ouro testando niveis recordes historico. Como comentado no post anterior, Ouro é proteção contra inflação. Ao mesmo tempo está comecando um aumento nos juros nos EUA (yields subindo). Isso é um movimento que confirma o medo de um cenario inflacionario.

Tem se o medo que os numeros de inflação em Setembro/Outubro serão meio assutadores. Devido ao aumento forte das commodities este ano, que tem peso grande no calculo do indice de inflação.

Já foi comentado também que a China, Brasil, Russia e India estão pensando em criar um novo padrão mundial de moeda que não dependa do USDolar.

Será que este movimento são chineses comprando ouro e vendendo dolar? Não se sabe quem esta comprando um e quem esta vendendo o outro, mas o que o preco esta mostrando é exatamente isto.

Não estou dizendo que tudo isso vai ocorrer, mas são dois possiveis cenarios.

Sendo

1- Bernanke e Obama são genios e salvaram o mundo e não teremos uma nova depressão;

2- Apesar de terem tentado fortemente a coisa precisa ir pro vinagre pra comecar a melhorar e teremos uma outra forte desestabilização nos mercados.

Quem tem interesse em acompanhar esta questão do cenario inflacionário eu recomendo ler Michael Pento que vive comentando na Bloomberg e CNBC este cenário inflacionario e o risco dele ocorrer.

Obama e Bernanke

O G20 é sério?

September 6, 2009 3 comments

Este final de semana em vespera de feriadão no Brasil (7 de Setembro) e dia do trabalho nos EUA o G20 (somente os ministro das finanças de cada país) esta em mais um daqueles encontros em Londres.

Acho que estes encontros no fim fica so pra Ingles ver. Os lideres mais poderosos do mundo acabam falando um monte de coisa interessante, ainda que em um discurso retórico, mas decisão dali não sai muito.

Lembro do comentario que coloquei no ultimo post do Sandro quando falou da ultimas reunião do G20 em Londres e aqui vão os bullet points que referi do AFR (Australian Financial Review) dos principais pontos de consenso.

- Reformas do sitema bancario mundial com enfase em incentivos de longo prazo v curto, maior necessidade de capital e controle de risco e isso nao necessariamente eh mais regulacao

- Jogo duro para os paraisos fiscais

- Jogo duro nos Headge Funds

- Cresce influencia dos Brics na mesa de decisao

- Menos barreiras comerciais

- Estimulo Fiscal

De certa forma alguns pontos tem sido seguidos como por exemplo estimulo fiscal. A meu ver até mais do que o necessário, pois sou da opinião que intervenção excessiva na economia distorce os mecanismos de mercados que são por natureza eficientes. Há controversias, mas essa discussão pode ser outro post.

O ponto mais difícil de implementar é a questão de gerenciamento de risco e diminuição de alavancagem dos bancos.

Alavancagem na linguagem contabil é Ativo/Patrimonio Liquido, ou seja o quanto um individuo ou entidade esta emprestando dinheiro para aumentar os ativos.

Exemplo: se eu tenho uma casa que vale 500mil dolares, tenho 100mil depositado no banco e tenho uma divida de hipoteca de 300 mil a minha alavancagem é.

500+100= 600 (ativo)

600-300= 300 (patrimonio liquido)

600/300= 2

No contabeles ou economes é equivalente a dizer que eu estou alavancado 2:1 (dois pra um)

Diria que 2:1 é algo saudavel e adminstravel contanto que o fluxo de caixa gerado pelo indivíduo, país ou empresa seja suficiente para pagar a divida. Logo os ativos serão sustentáveis e o patrimonio liquido aumenta ao longo do tempo, fazendo com que a entidade fique mais “rica”.

Para se ter uma idea é “normal” bancos estarem alavancados 30:1. Alguns bancos europeus em media tem uma alavancagem de 50 a 60 pra um.

Tipo bancos de renome com Deutsche Bank, Dresdner, SocGen, UBS tem uma media de alavancagem de 41:1.

Tomando o exemplo do individuo que tem uma casa e uma divida é como se fosse, mantendo todas as outras variaveis constantes, se ele tivesse uma divida de 590 mil ao inves de 300. Ou seja, depois que vendesse a casa no valor de mercado que atualmente é 500 e pagasse a divida, sobraria na mão apenas 10mil dolares.

É assim que banco funciona. Se um banco tem 1 milhão pra comecar uma operação eles podem movimentar 60 milhões ou mais.

Caiu a ficha?

Agora imagina um banco que esta alavancado em 60:1 e o seu ativo esta cheio de Mortgage Backed Secutity avaliado em 60 Bilhoes. Se o banco esta alavancado em 60:1 o patrimonio liquido é apenas 1bi. Isso é um exemplo extremo, só pra ilustrar o perigo e quão fragil o sistema é.

Se da uma quebra no mercado como ocorreu em Setembro do ano passado os 60 Bilhoes de ativos podem cair em valor muito rapido e o banco passa a ter um patrimonio liquido negativo e as ações do banco viram Pó. Isso foi mais ou menos o que aconteceu com o Lehman Bros.

Agora esta noticia da Reuters sobre este encontro do G20

Embora todos concordem que algo deve ser feito e não podem perder o momentum em fazer as reformas agora.

What’s been very important is the very strong support that the G20 expressed toward keeping momentum in the financial reform effort,” said Mario Draghi, the Bank of Italy governor who heads the Financial Stability Board, which the G20 has told to implement its financial reform agenda.

“Much has been done but ministers and governors recognized it’s not time for complacency and more is in the making,” Draghi said.

Mudar as regras em pratica não é facil e vai ser dificil convencer os bancos

Segundo um dos bancos eles já tem capital (patrimonio liquido) suficiente e estão de acordos com as regras da Basilea

“We are already holding more (capital) than we need to under the Basel II rules in anticipation of changes,” an investment bank official said.

Pra quem não sabe Basel rules são regras que define regras de capital minimo para manter o sistema solido. Quem define isto é o BIS (Bank of International Settlement) onde a sede fica na Basileia-Suissa, mas nem todos os bancos aderem as regras.

O mercado e a quebra de 2008 provou que as regras não servem pra nada a não ser se são adotadas ou se são tem alguem maquiando balanço por ai.

A controversia não é pequena como podem ver em outro artigo da Reuters

Os bancos são relutantes

“The idea of a simple leverage ratio to help anticipate financial crises is unlikely to work, European Central Bank governing council member Christian Noyer said on Tuesday.”

E sabem quem é que mais precisa das regras

Noyer said it was important for more countries to sign up to the Basel II capital rules and adoption by the United States was particularly urgent.

Vamos esperar pelo melhor.

Pra finalizar aqui vai a placa da conferencia de Bretton Woods quando foi firmado a valor do ouro em Dollar em 35 USD

bretton_woods_sign

Enquanto isso, o preco do Ouro esta explodindo.

Hoje esta beirando os 1000 e indo pra cima forte. Aumento de 2757% em 65 anos. Isso da em media 5.29% ao ano em 65 anos, mais ou menos a inflação media no periodo. Se descontar a inflação o preço do ouro mais alto foi no final da decada de 70 quando chegou o equivalente em dinheiros de hoje em mais de 2000. Isso indica que o ouro ainda esta muito barato, ainda mais se os numeros de inflação começarem a piorar.

Ha especulações que terá inflação em breve e ninguem quer ver o seu patrimonio desaparecer. Metais preciosos sempre foram a melhor forma de manter seguro o patrimonio em tempos de inflação.

E o G20 de Londres?

April 3, 2009 6 comments

G20

Acompanhando as últimas notícias sobre o G20 nos jornais, deu a impressão que estávamos assistindo o desenho dos “superamigos”. É como se Londres tivesse virado a “Sala de Justiça”, reunindo os 20 mais poderosos super heróis do planeta com o objetivo de acabar com a maior crise financeira desde a grande depressão.

A diferença é que os super heróis, não tem nada de super. Até os EUA, país vencedor da guerra da fria, e conhecido em outros tempos com a única super potência do mundo, já não é mais tão super assim. O termo “super amigos” também não procede. Aliás, nas semanas antecedentes ao G20, foi um festival de gestos e acusações nada amistosas como o puxão de orelha que os chineses deram nos EUA, a reclamação dos americanos que queriam ver os europeus gastando dinheiro para estimular a economia mundial, e o Lula dizendo que os culpados pela crise são os homens brancos de olhos azuis. E para quem pensou que o Lula estaria sozinho nessa, até o Sarkozy entrou no coro, mas preferiu usar um termo mais refinado: “Anglo-Saxões”.

Completando o show de sopapos, China e Rússia também se uniram contra o dólar americano:

China on Monday added its voice to a growing international chorus seeking the replacement of the dollar as the main reserve currency, urging for an overhaul of the global monetary system to allow for wider use of Special Drawing Rights (SDRs) allocated by the International Monetary Fund (IMF).

Chinese central bank chief Zhou Xiaochuan said the SDRs, created by the IMF as international reserve assets in 1965, could be used as a super-sovereign reserve currency, eventually displacing the dollar.

His comments come a week after Russia said it would put forward a proposal for the creation of a new reserve currency issued by international financial institutions at the G20 meeting in April.

Russia said it had the broad support of its fellow BRIC countries — Brazil, India and China — as well as South Korea and South Africa for its proposal.

Tradução:

A China, nessa segunda, juntou-se ao crescente coro internacional que procura substituir o dólar como a principal moeda para reservas internacionais, pedindo uma reforma geral do sistema financeiro global que permita o uso maior do “direito especial de saque” (SDR’s) alocados pelo Fundo Monetário Internacional.

Nota: O “direito especial de saque” sería o equivalente a URV usada no Brasil pré-implementação do real.

O chefe do Banco Central Chinês Zhou Xiaochuan disse que as SDRs, que foram criadas pelo FMI como títulos de reserva internacional em 1965, poderíam ser usadas como uma moeda supra-soberana, e que viriam eventualmente a substituir o dólar.

O seu comentário vem uma semana após a Rússia dizer que vai propor a criação de uma nova moeda internacional emitida por instituições internacionais financeiras no encontro de G20 em Abril.

A Rússia diz que sua proposta tem o apoio geral de outros países que constituem as BRIC’s — Brasil, Índia e China — assim como da Coréia do Sul e e da África do Sul.

E enquanto o mundo falava do comentário do Lula em relação as “pessoas brancas de olhos azuis”, muita gente nem percebeu que na mesma coletiva, o presidente brasileiro apoiou publicamente a proposta dos russos:

“Brazilian President Luiz Inacio Lula da Silva said on Thursday that it was important to discuss a Russian proposal to replace the U.S. dollar as the international reserve currency.”

Tradução:

“O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva disse na quinta, que também era importante discutir a proposta russa para substituir o dólar como a moeda corrente de reservas internacionals”

E no que deu o G20 então?

Não foi um show dos super amigos, criando uma super resolução para uma super crise global. Também não foi uma guerra, como todas as declarações e cutucões descritos acima, deixaram a entender. Mas foi um grande passo em direção a uma mudança na atual ordem econômica mundial. Falou-se muito da quada de braço entre Barack Obama (que aliás roubou a cena com seu carisma) e os europeus liderados pelo Sarkozy e chanceler alemã Angela Merkel, mas os maiores vencedores foram as BRICs, que conseguiram exatamente o que pediram numa declaração conjunta feita no meio de Março:

March 14 (Reuters) – Issuing their first-ever communique at a G20 finance ministers’ meeting, Brazil, China, Russia and India have called for a bigger voice on international bodies — signalling their growing political resolve to influence global affairs.

9. We draw our special attention to the reform of international financial institutions. We stand for reviewing the IMF role and mandate so as to adapt it to a new global monetary and financial architecture. We emphasize the importance of a strong commitment to governance reform with a clear timetable and roadmap.

Tradução:

Março 14 (Reuters) – Emitindo o seu primeiro comunidado no encontro de ministros do G20, Brasil, China, Russia e India pedem maior voz nos orgãos internacionais — apontando sua vontade crescente de influenciar relações globais.

9. Colocamos atenção especial na reforma da instituições financeiras internacionais. Nos posicionamos para a revisão do papel e mandato do FMI para que se adapte a nova arquitetura monetária e financeira global. Enfatizamos a importancia de um forte comprometimento para reforma de governo com um plano e calendários claros.

E foi o que aconteceu, e que foi bem notado pela BBC:

The IMF is also set to have a bigger role in preventing future crises, by developing an early warning system for financial problems, and taking a larger role in looking at the problems of the financial sector as a whole, in conjunction with a new global regulator, the Financial Services Board.

But the biggest changes in the IMF will come after 2011, when it has been agreed that there will be a review of the voting structure. That could lead to the US losing its veto power, while China and other emerging countries get a bigger voice.

It has already been agreed that in future, the convention that the World Bank and IMF must be headed by an American and a European respectively will be abandoned.

In return, China will be asked to lend some of its reserves to the IMF – and will continue to push for the idea that the SDR will become a real reserve currency, ultimately replacing the dollar.

The changes to the resources and the role of the IMF are historic and perhaps the most important outcome of the G20 summit.

Tradução:

O FMI também terá um papel maior na prevenção de crises futuras, desenvolvendo um sistema de alarme para problemas financeiros, e também aumentando o seu papel na fiscalização dos problemas do setor financeiro como um todo, em conjunção com o novo regulador global, denominado Conselho de Serviços Financeiros.

Mas as maiores mudanças no FMI vão ocorrer depois de 2011, quando haverá uma revisão da estrutura de votos. Isso pode levar os EUA a perderem o seu poder de veto, enquanto países como a China e outros emergentes terão maior voz.

Também foi decidido que no futuro, a convenção que o Banco Mundial e o FMI devem ser liderados por um americano e um europeu respectivamente vai ser abandonada.

Em retribuição, a China esprestará parte de suas reservas ao FMI – e vai continuar pressionando a idéia que a SDR de torne a verdadeira moeda de reservas internacionais, substituindo o dólar.

A mundança dos recursos e papel do FMI são históricas e talvez seja o maior resultado do encontro do G20.

Quem deve estar feliz da vida, deve ser o brasileiro Caio Kock-Weser, ex-ministro das finanças da Alemanha, e que foi indicado pelos europeus em 2000 para assumir o FMI. Ele sería o primeiro brasileiro a liderar o FMI, mas foi vetado pelos americanos, mesmo tendo nacionalidade alemã.

No demais, também é bom saber que o Brasil vai emprestar dinheiro ao FMI.

O mundo está ficando de cabeça para baixo.

O Brasil na mídia internacional

March 27, 2009 5 comments

Assim como havia prometido, vou aproveitar para repassar um pouco sobre o que tem saído sobre a economia brasileira na mídia internacional. Se eu já estava bastante surpreso com o número de artigos que tem sido publicados nos últimos 18 meses, fiquei ainda mais nessas últimas 4 semanas com a visita do Lula a Washington para se encontrar com o presidente americano Barack Obama.

Ontem mesmo, quando abrí a página da CNN, já havia uma entrevista com o Lula sobre a ascenção brasileira dentro da nova ordem mundial com o respeitado jornalista Fareed Zakaria, e uma outra sobre o mesmo assunto na BBC. Também na BBC de ontem, noticiaram sobre a viagem do primeiro ministro britânico Gordon Brown ao Brasil em preparação para o G20 de Londres.

Na edição do final-de-semana, o Wall Street Journal publicou uma reportagem sobre a conferência patrocinada por eles, e que reuniu o presidente Lula e investidores estrangeiros em Nova Iorque.

more about “Lula Wall Street Journal“, posted with vodpod

E na Newsweek da semana passada, logo após a matéria sobre a antecipação da hegemonia das BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) na economia mundial de 2050 para 2027, devido a atual crise financeira, também publicaram outra entrevista com o Lula.

Mas acho que de tudo que tem saído, a mais interessante foi essa da Time do início do mês:

The One Country That Might Avoid Recession Is…

Now, in the middle of the worst global downturn for decades, Brazil could finally be the country of the moment. According to a recent study by the Paris-based Organization for Economic Cooperation & Development (OECD), Brazil may be the only one of 34 major economies that avoids recession in 2009. While the U.S. debates whether to nationalize its crippled banks, Brazil’s remain comparatively sound. Oil companies worldwide are slashing investment, but Brazil’s state-run Petrobras is going ahead with a four-year, $174 billion expansion plan. “Brazil,” Lula boasted to TIME, “is riding the current crisis better than many developed countries.”

To be sure, the boom — years of 5% growth and soaring exports — is over. Industrial production has plunged. Even Embraer, the aircraft maker whose jets sell to scores of airlines, and which has become a symbol of Brazil’s newfound confidence, recently announced plans to lay off 4,000 employees, almost one-fifth of its workforce. Commodity exports — soybeans, steel — are weak. The main stock market is down 25% since September. But Lula, a former shoe-shine boy who heads the leftist Workers Party (PT), has so far kept the good times from becoming a hellish bust. In Brazil, that’s nothing short of miraculous.

There may be another miracle in the making. Because unfettered capitalism is widely blamed for the global meltdown, economists and laborers alike say Brazil has become an example of what Lula likes to call “the financial strategy of the future.” By that he means a postideological approach that is equal parts wealth creation for corporations such as Embraer and wealth redistribution for underdogs like Da Silva. All this under the kind of prudent financial regulation that seems to have gone missing in the developed world of late.

Brazil still faces huge challenges; its education system is dysfunctional, its political system squalid, corruption endemic. But consider: 53% of Brazil’s 190 million people now occupy the middle class, up from 42% in 2002. This increased social mobility happened at the same time the country’s main stock index soared some 480% before last fall’s downturn.

Tradução:

Agora, no meio da pior crise global por décadas, o Brasil pode finalmente se tornar o país do momento. De acordo com um estudo recente da OECD, o Brasil pode ser o único das 34 principais economias que pode evitar uma recessão em 2009. Enquanto os EUA debatem se nacionalizam os seus bancos quebrados, o Brasil continua comparavelmente saudável. Companhias de petróleo ao redor do mundo, estão reduzindo investimentos, mas a Petrobras, que pertence ao estado, está indo adiante com um plano de expansão de 174 bilhões de dólares em 4 anos. “O Brasil”, Lula disse a Time, “está enfrentando a crise bem melhor que muitos países desenvolvidos.”

Para ter certeza, o “boom” – anos de 5% de crescimento e alta exportação – terminou. A produção industrial caiu. Até mesmo a Embraer, a fabricante que vende seus aviões para dezenas de empresas aéreas, e que virou símbolo da re-encontrada confiança brasileira, recentemente anunciou planos de cortar 4000 funcionários, quase 1/5 do seu quadro. A exportação de produtos primários – soja, ferro – enfraqueceu. A principal bolsa de valores caiu 25% desde setembro. Mas Lula, um ex-engraixate que lidera o esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), tem até agora evitado que o bons tempos terminem numa falência infernal. No Brasil, isso não é menos que milagre.

Deve ter outro milagre a caminho. Por que o capitalismo descarrilhado tem sido amplamente culpado pela crise global, economistas e trabalhadores dizem que o Brasil se tornou um exemplo do que o Lula gosta de chamar “estratégia financeira do futuro.” No que ele diz ser uma abordagem pós-ideológica que é definida pela igual geração de riqueza para empresas como a Embraer, e distruibuição de riqueza para os menos abastados como Da Silva. Tudo isso debaixo de um sistema regulatório prudente que deixou de existir no mundo desenvolvido de uns tempos para cá.

O Brasil ainda enfrenta desafios enormes; seu sistema educacional é disfuncional; o sistema político imoral; a corrupção é endêmica. Mas leve em consideração: 53% dos 190 milhões de brasileiros agora ocupam a classe média, acima dos 42% em 2002. Esse aumento na mobilidade social aconteceu no mesmo momento que a principal bolsa do país subiu cerca de 480% antes da crise no outono passado.

Lógico de umas semanas para cá muita coisa mudou. Está mais do que claro que o Brasil vai sofrer os efeitos da crise, e todas as indústrias que dependem de exportação vão sofrer, cortar funcionários e muitas podem até fechar as portas. Mas se o Brasil crescer os 0.25% esperados ou mesmo ficar no 0% já vai estar no lucro. O importante é não deixar o impacto do declínio econômico no resto do mundo se espalhar para dentro do mercado interno.

Outra coisa que se nota muito na mídia internacional, é uma certa admiração pela figura do Lula. Mas o erro nessas análises, é não colocar a devida ênfase que a situação atual no Brasil não é resultado da ação de um indivíduo ou partido. Mas sim de um trabalho que começou em 1994 com a estabilização da economia na época do FHC. O grande mérito do Lula, ao meu ver, foi ter mantido as mesmas políticas econômicas, e aproveitado o crescimento para investir em alguns programas sociais. Isso colocando tudo numa visão macro, já que os escândalos de corrupção no primeiro mandato do Lula, que deveriam ser melhor apurados, foram ofuscados pela boa performance econômica do país.

Mas ao menos, o FHC não foi tão esquecido tanto na Time:

Lula’s predecessor, Fernando Henrique Cardoso, was the first President to recognize that change was needed. He restored fiscal sanity by slaying hyperinflation, but his attempts at social reform were timid.

Tradução:

O predecessor do Lula, Fernando Henrique Cardoso, foi o primeiro presidente a reconhecer que mudar era preciso. Ele restaurou a sanidade fiscal acabando com a hiperinflação, mas suas tentativas de reforma social foram tímidas.

Quanto no Wall Street Journal:

Once renowned for its periodic hyperinflationary bouts, Brazil now enjoys relative price stability, and Mr. da Silva, who adopted former President Fernando Henrique Cardoso’s anti-inflation stance, deserves credit.

Tradução:

Uma vez reconhecido por seus breves períodos de hiperinflação, o Brasil agora goza de relativa estabilidade de preços, e o Sr. da Silva, que adotou a mesma política anti-inflação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, [também] merece crédito.

China, Estados Unidos e o começo de uma nova era

March 21, 2009 6 comments

chinausa

Nas últimas semanas, acho que uma das notícias que mais me chamou a atenção foi a visita da Hillary Clinton a China. Pela presença do secretário do tesouro Tim Geithner na comitiva, ficou bem claro que não sería uma visita de cortesia, e como um jornalista da Bloomberg colocou:

Hillary Clinton’s visit to China last month dramatized the point. She didn’t exactly arrive with her hat in her hand, yet it was surreal to see the U.S. secretary of State hawking bonds.

Tradução:

A visita de Hillary Clinton a China no mês passado, demonstrou o ponto. Ela não chegou exatamente com o chapéu na mão, mesmo assim foi “surreal” ver a secretária de estado dos EUA, vendendo títulos de dívida.

E para completar o cenário. Na semana passada, em entrevista coletiva, o premier chinês solta a seguinte declaração:

“We have lent a huge amount of money to the United States…Of course we are concerned about the safety of our assets. To be honest, I am a little bit worried. I request the US to maintain its good credit, to honor its promises and to guarantee the safety of China’s assets.”

Tradução:

“Nós emprestamos uma quantia enorme de dinheiro aos EUA… É claro que estamos inquietos sobre a segurança do nosso investimento. Para ser honesto, eu estou um pouco preocupado. Eu peço aos EUA que mantenham seu bom crédito, afim de honrar com sua promessas e garantir a segurança do nosso investimento”

Adaptando as palavras do Peter Hartcher do SMH: “A China aperta, e os EUA recebem um duro recado”.

Há muito se fala da mudança no balanço de poder internacional. Mas no momento que os EUA tem que pedír dinheiro não só para a China, mas também deve para outros países como o Brasil, começa a ficar claro que esse processo já começou.

E para quem não sabe. É verdade. O Brasil é hoje o 5o maior credor dos EUA. De acordo com Departamento do Tesouro Americano, eles devem ao Brasil, cerca de 133 bilhões de dólares.

Aliás, há um pouco mais de um ano, para quem não lembra, o Brasil deixou de ser devedor para se tornar credor líquido de dívida externa. Ou seja, o valor de suas reservas internacionais supera o valor de sua dívida externa.

Em termos de reservas internacionais, o Brasil é o 7o país, tem cerca de 200 bilhões no caixa, e praticamente dobrou o valor que tinha em 2007.

Além de todas as notícias em relação a China e EUA, outra que chamou a atenção em termos da nova ordem econômica mundial, foi a do Financial Times, que publicou um documento secreto do governo britânico que divide o G20 em duas classes prioritárias. A primeira contém EUA, China, Japão, Alemanha, França, Itália, Índia, Brasil, Arábia Saudita, Coréia do Sul e África do Sul. E relegados ao segundo grupo: Russia, Australia, Canadá, Argentina, México, Indonésia, e Turquia.

Pelo movimento de diplomatas, declarações feitas para mídia, e visitas de chefes de estado; a reunião do G20 marcada para Abril já começou.

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.